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20-03-2013

O Casamento da Princesa - Fajardo

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Há muito, muito tempo, havia um rei que queria casar sua única filha. Todavia, a princesa era horrorosa, feia como o diabo, e não havia jeito de aparecer candidato à sua mão. Assim, o rei resolveu oferecer um grande prêmio àquele que se dispusesse a fazer o sacrifício. O rei pensou, pensou e, finalmente, decidiu dar ao candidato um castelo e o mais belo cavalo do reino. Mandou fazer os editais. Em pouco tempo, todos do reino sabiam do desejo do rei e do fabuloso prêmio que ele oferecia ao infeliz.

            Não demorou muito a aparecer o primeiro candidato. Um sujeito desengonçado, magrelo, careca e feio como a peste. Quando o rei viu o gajo, falou:

            --- Tá louco, meu? Se juntar duas feiúras como essas, vai me nascer um neto de matar cavalo de susto! Suma daqui! E botou o bicho pra correr.

            O segundo candidato era um indivíduo baixinho, quase anão, gordo, sem pescoço e vesgo. Além do mais, tinha um “CC” de derrubar gato do muro. O rei olhou bem para ele e lascou:

            --- Você não serve nem pra pintar rodapé. Primeiro, porque a pança não deixa. Segundo, porque vesgo do jeito que você é, vai pintar é o pé das pessoas que passarem. Se manda, cara! Só me aparece assombração aqui!   

            E, assim, só refugo comparecia ao castelo e cada um mais feio e desconjuntado que o outro. Todos iam sendo devidamente rejeitados. Até que, um dia, apresentou-se um rapaz elegante, boas maneiras, agradável conversa. Era um corretor de seguros. Quando o rei viu, falou:

            ---  É esse o otário. O castelo está em ruínas e o cavalo é manco. Mas, quando ele descobrir, será tarde demais. Já estará casado.

            Mandou trazer a filha para o candidato conhecer. Quando ela entrou, o corretor estremeceu, perdeu a fala. Quis fugir, mas os guardas estavam ali, de olho nele. Portanto, teve que manter a pose. Sorriu amarelo para a noiva, analisando a fria em que havia entrado. Nem por dez castelos e cinquenta cavalos, ele toparia enfrentar a jabiraca. Mas como se salvar?

            O rei, manjando a situação, marcou logo o casamento para o dia seguinte. Mandou acomodar o desventurado num aposento, que tinha grade nas janelas e colocou um guarda na porta, para ele não fugir.

            O corretor sentou-se na cama, colocou a cabeça entre as mãos e, desolado, começou a pensar como sair daquela encrenca. Nisso, entra no quarto, com toda a pompa, o ministro das finanças do rei que, após dispensar os guardas que o acompanhavam, aproximou-se do corretor e disse-lhe:

            --- Eu posso tirar você dessa fria. Nós somos muito parecidos. Se trocarmos de roupa, ninguém vai notar a diferença.

            --- Mas, por que você ficaria no meu lugar? Você é o ministro do rei. Tem tudo o que quer. Qual a vantagem?

            --- Eu andei fazendo umas falcatruas com o dinheiro do rei, para pagar dividas de jogo. Quando o réu souber, vai mandar cortar minha cabeça. 

            --- Se eu ficar no seu lugar, quem perde a cabeça sou eu!

            --- O rei não sabe de nada. Talvez nunca venha a saber. É um jogo. E, como você sabe, eu sou viciado em jogo....Dou-lhe duas horas para pensar.

            Após a saída do ministro, o corretor assim pensou: “Se ele ficar no meu lugar, fico livre da jabiraca, que é uma condição perpétua. Mas, no lugar dele, corro o risco de ser decapitado a qualquer momento”.

            --- Oh, dúvida atroz. Ser ou não ser ministro, eis a questão!

            E ficou tão absorto nos pensamentos que não viu o tempo passar. De repente, entrou no aposento, de volta, o ministro, que lhe disse:

            --- Então? Não temos mais tempo. É agora ou nunca!

            --- Tá bem, eu topo. Mas nosso segredo tem que ser para sempre. Senão, ambos seremos decapitados.

            --- Tem a minha palavra, disse o ministro, gravemente.

            Trocaram rapidamente de roupa. O ministro deu-lhe as instruções: deveria escorregar de propósito na escada, bater com a cabeça no chão e fingir um ataque de amnésia. Á medida que o tempo fosse passando, “sua memória iria voltando” e ele se integraria perfeitamente ao mundo dos ministros. Tudo perfeito, para ninguém notar a troca de posições. E assim foi feito. Depois da queda, o “ministro” foi levado para os seus aposentos. O médico do rei foi chamado. Após examiná-lo, expediu um atestado, onde declarava que o “ministro” estava com as faculdades mentais prejudicadas, temporariamente.

            Ninguém notou a troca dos dois e o “ministro” ia se “recuperando”, quando, certo dia, aconteceu o desastre. O rei ficou sabendo do desfalque e, imediatamente, mandou prender o “ministro”. Ao saber que o rei havia descoberto o rombo nos cofres e que ele fatalmente seria decapitado, o “ministro” pirou. Desta vez, de verdade.

            Levantada as provas, o julgamento foi marcado. Todavia, os advogados de defesa argumentaram que um loco não poderia ser responsabilizado pelos atos de um homem mentalmente sadio. Se o “ministro” estava lúcido na época da fraude, agora estava doido e não poderia responder por aqueles atos. Se o “ministro” já estava louco, na época do desfalque, o seu caso seria de inimputabilidade. Ou seja, o réu estaria isento de culpa. Criou-se uma tremenda polêmica jurídica em torno do caso, mas, no final, o réu foi favorecido. Assim, o corretor de seguros foi mandado para uma instituição de malucos, onde passou o resto de sua vida batendo com a cabeça na parede e dizendo:

            --- Onde é que eu fui amarrar minha égua. Onde é que eu fui amarrar...

            O verdadeiro ministro, ao descobrir que o castelo, que ele havia ganho, estava em ruínas e que o cavalo era manco, entrou em profunda depressão. E, para completar a desgraça, ao entrar, distraidamente, no quarto, de manhã, e deparar com a princesa de rolinhos nos cabelos e creme na cara, pensou que tinha visto assombração. Não agüentou mais esse tranco. Empalideceu e caiu duro. Morreu de susto.

            Moral da história: “Mulher feia pode ser estopim de muita desgraça.”

 

Fajardo

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